domingo, 25 de setembro de 2011

O sucesso visto por um cristão



            Se o cristão pode, sem escrúpulo, falar de sucesso, é porque ele atribui a esse termo dimensões que não se encontram, precisamente, no star system de Hollywood:
  • A confiança total no Pai
  • O impacto sobre os sofrimentos mais pungentes
  • A cruz
Jesus possuía sem dúvida dons excepcionais para curar doenças e multiplicar doenças e multiplicar pães. Isso não é o específico do “sucesso cristão” mas sim a confiança total do Cristo nAquele que ele chamava de “Pai”. Palavras incríveis pouco antes da ressurreição de Lazaro: “Pai, eu te dou graças porque me ouviste. Eu sei que sempre me ouves” (João 11, 41-42). É realmente muito poderoso quem pode falar dessa maneira: a fonte da vida corre nele sem nenhum obstáculo.
Outra razão do sucesso: o Messias é aquele que toca diretamente a miséria do povo. Ele vai para onde se faz o mal, para onde está o mal. Ele desaloja os demônios de seu tempo, de modo concreto e radical. Ele põe de pé, faz ver, reintegra na comunidade e denuncia a opressão dos fariseus e dos sacerdotes.
O sucesso cristão, enfim, possui uma originalidade: ele abraça a cruz. O teste da estrela cristã está na maneira de abordar a cruz. Não existe sucesso cristão que não tenha passado pela cruz: cruz secreta da agonia interior e da dúvida, cruz das críticas e do fracasso, cruz do abandono pelos amigos, cruz da injustiça e da prisão.
Por que essa cruz é necessária? Porque ela realiza em nós a morte do ego e torna transparente aos olhos de todos a justiça e a força de Deus. Quando os espectadores daquela época viram o Cristo abatido e traspassado na cruz, compreenderam melhor do que quando viam os milagres de cura: “De fato! Esse homem era justo!”, disse o centurião após a morte de Jesus (Lucas 23, 47).
O publicitário Séguéla fez um bom diagnóstico ao afirmar que os políticos midiáticos cuidam de seus egos: “A política está doente pelo excesso de palavras, pelo excesso de falsidade. Com frases demasiadas e ênfase exagerada, ela ficou embriaga pelos continentes, mas perdeu seu conteúdo. Existir é simples, basta expressar sua alma, não ego”. Quando isso ocorre, não é a potência de Deus que fala, mas meu pequeno ego inflado. É por isso que os políticos buscam a sim mesmos, não o bem do público. Muitas vezes, por trás das belas frases, é a estrela que busca a si mesma, enfeitando-se com bons sentimentos. O sofrimento é necessário para nos apartar de uma estrela mundana. Cristo nunca procurou a própria glória. Existe um ponto no qual, como comunicador, meço minha distância com o Cristo: a busca de minha glória e de meu sucesso está colada na pele. Mas a cruz me é tão necessária quanto a luz. Não porque a cruz endurece ao fazer sofrer, mas porque ela mata o ego ao fazê-lo perder a sua cara. Esse homem Jesus, pendurado na cruz, perde seu belo rosto de superstar, sua atração junto às multidões: ele se obriga a abandonar-se àqueles mesmos que o matam. A cruz é a perda da imagem bela. Mistério difícil de ser proclamado! Temos de entender que a cruz não é para nós, comunicadores, um caminho opcional, uma disposição virtuosa qualquer, ela é uma necessidade de perseguição como uma necessidade do próprio ministério. Assim como quem corre uma maratona precisa exercitar-se o ano inteiro para a prova, do mesmo modo é necessário a quem evangeliza introduzir e experimentar a cruz em sua vida. Não para adquirir músculos, mas para esvaziar-se do ego. Mas do que nunca, nessa cultura do sucesso midiático, somos obrigados – para evangelizar – a nos alegrar com nossas fraquezas, humilhações, necessidades, perseguições e angústias, por causa de Cristo. Pois quando sou fraco é que sou forte” (2Coríntios 12,10).
Quando o ego cede seu lugar, transparece a potência de Deus: os cristãos conhecem esta fala. É preciso então procurar a fraqueza, a dificuldade, o revés? Não é preciso procurar aquilo que virá inelutavelmente. Penso que nossa comunicação deveria enraizar-se numa dupla atitude: o sucesso e a fuga, a imersão midiática e a solidão. Cristo na vida pública, apresenta este duplo aspecto: ele mergulha no sucesso da multiplicação dos pães e, à tardinha, retira-se para a montanha (João 6,1-5). Perigoso controlar a audiência e ser ovacionado pelo público: são alimentos artificiais que revigoram o ego. Também a solidão da presença de si mesmo e de Deus pertence ao nosso treinamento cotidiano. O específico do sucesso cristão não é o amor pela cruz como tal, nem o prazer de se humilhar e ser o último de todos, mas a convicção de que a cruz é intrínseca à vida plena e à manifestação de Deus. Sem a cruz, somos incapazes de conformar nosso ego e, sem ela, as pessoas não conseguem perceber aquilo que nos anima por dentro.
As Igrejas pobres ou em dificuldade fazem-nos recordar, melhor que outras a lei da cruz. A revista Ásia Focus cita as palavras de um jornal do Paquistão: “Diferentemente dos lugares onde a teologia é construída nas universidades ou nos seminários relativamente confortáveis [...] a Igreja da Ásia fala mais da cruz, da fraqueza e kénose de Jesus. Os cristãos acolhem com mais prazer uma Igreja que é humilde, paciente e impotente, mas que vive na esperança...”.

(BABIN Pierre e ZUKOWSKI Ângela An. Mídias chance para o Evangelho. Edições Loyola, São Paulo, 2005.)

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